Devaneios



Eis a dimensão onde detenho absoluto poder. "Devaneios", o espaço da minha liberdade. Sem obrigações, sem projeções, sem ideias programadas... "Devaneios". A diluição da realidade na dinâmica da construção pura, sem regras, sem sentidos, sem maneiras, absurda, mas com muita luz. Direção incerta que arranca em potência toura, baila com musas e bruxas, degola dragões, políticos e pratos gastronómicos, desenterra as verdades mais profundas, enterra os pés na cabeça de deuses pequenos, grita as dores das minhocas e dos musgos e vinga a vinganças dela mesma, porque vingar é feio.

Segue a página do Facebook D'r-t para estares a par de todas as novidades

Bem-vindo aos Devaneios

É lançado um novo devaneio de 10 em 10 dias

Escritores, Leitores e Armas Olímpicas

Às vezes ponho-me a pensar no som que vocês dão à minha voz quando me leem. Será que tenho uma voz sedutora? Ora ouçam lá, dentro dessa vossa mente... sexy?

Se vocês são daqueles que leem com a vossa própria voz, compreendo, também sou muito narcisista, a minha imaginação é que não me permite resumir-me à monotonia da minha voz. Às vezes é interessante imaginar a voz do Batman. Quanto ao que escrevo, imaginem um super-herói a sério, posso ser eu mesmo, na boa.

Este desabafo está-se a tornar mais numa partilha. Partilha deste desejo que tenho em saber o que acontece dentro de vosso ser quando ele se funde, por momentos, com estas letras - e muitas outras que escrevi - que são mais que letras, são sentidos, forças da natureza semiceleste. Mas eu sou mais que um super-herói, sou um semideus, um Hércules, mas tipo super-homem, que pode voar e ter visão... esqueçam.

Estava eu a dizer o mistério que é para mim esse encontro entre vocês e estas partes de mim. Fusão mística, imagino. Não têm que agradecer. Se por acaso apanharem algum pelo púbico numa dessas partes, desculpem, é que dou tudo de mim quando escrevo, sem reservas.

Um leitor guarda dentro dele partes de muitos semideuses. - Quero apenas esclarecer que, entre todos os semideuses, eu sou quase um deus. - Mas, o que serão essas partes dos semideuses que entram dentro de vocês? Partes corporais? Não, aquilo dos pelos púbicos era só a brincar. No mundo fantástico da literatura, os semideuses entram em nós com as suas armas olímpicas.

Sim, quem lê funde o seu ser com uma arma olímpicas de um semideus. Porque é que são olímpicas? Porque foram feitas no Olimpo dos Deuses da Literatura, forjadas pelos próprios deuses. Os semideuses agarram nessas armas divinas e enfiam-nas pela vossa goela abaixo. Apesar de não precisarem de dons divinos, os leitores necessitam de ter habilidades de faquir. Engolir uma arma não é pera doce. Abrir a goela, afastar os órgãos internos - para que a arma possa entrar no covil escuro e húmido do ser - sem vomitar, já é, por si, uma proeza, julgo que sejam necessárias certas qualidades genéticas, não se ensina. Pelo menos está fora das minhas competências. Lembrem-se, eu apenas empunho as armas que os deuses me dão e espeto-as pela vossa goela abaixo, no máximo posso ser meiguinho, mas assim não tem tanta piada.

Desabafo, partilha, devaneio, nenhum conselho espiritual... é isto. Ao menos já sabem que vocês são faquires, que isto é uma arma olímpica, que os escritores são semideuses e que eu sou quase um deus. Quase, quase, só falta tratar da papelada.

O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Dragão

10-05-2020

Existe um dragão cujas asas tapam por completo a luz, o rugido faz tremer as terras mais distantes, e o fogo devora cidades, campos e corações. Esse dragão é maior que a face da humanidade de hoje, no entanto, mais pequeno que o olhar de qualquer criança.

Os seus olhos são dois pontos, minúsculos, míopes, que só vêm verde e vermelho. Como é míope, e como é uma criatura mística, quando olha para as coisas, não vê as coisas, vê outras criaturas místicas tão ou mais ferozes que ele. Às vezes, uma roda solta de um pneu de um carro parece mesmo um duende preto a descer pela rua. Os dragões adoram duendes pretos, ou acham que adoram, na verdade nenhum dragão comeu alguma vez um duende preto, ou de qualquer outra cor. 

Este dragão míope vive sempre a fugir de um fantasma qualquer, ou a perseguir miragens de duendes pretos. Por causa desses medos e obsessões, ele destrói tudo por onde passa. Na verdade, nem sequer se dá conta do Homem, é demasiado míope. É na profunda ignorância que este dragão é um monstro.

Ele é coberto por muitas escamas, cada escama, cada defeito e insegurança que quer esconder. As suas asas voam em céus que não são deste mundo, mas que fazem este mundo. As suas garras cravam-se em todo o tipo de gárgulas, gnomos e flamingos de jardim, afiadas como lâminas, são feitas de quer-atina. Garras feitas de "quer", de "querer", do desejo! "Atina" não sei o que é, em primeira instância diria que tem a ver com "atinar", mas este dragão e estas garras são tudo menos algo que está atinado ou em vias de atinar. 

E o seu fogo é feito de fome, fome de viver. Viver o quê? Uma vida de humano, de anjo, ou outra coisa qualquer. Uma vida sem dragão. Sim, o dragão tem fome da sua ausência. Mas o fumo da ignorância que lhe sai pelas narinas deturpa-lhe a vista e a mente, esquece-se que é ele que está a mais e projeta esse "a mais" no mundo. É o mundo que recebe a sua ira, a sua revolta, o seu medo, a sua incompreensão de ser dragão e ter-se esquecido do que um dragão é. 

Louco, o dragão persegue duendes e foge de fénixes, tudo coisas que não existem. E a verdade é que nem o dragão existe, só que ele não sabe, ou melhor, esqueceu-se, esqueceu-se que é uma criação que nasceu do sangue de alguém que, na verdade, é muito maior que ele. 

O dragão tomou o sague desse alguém e passou a chamar-se esse alguém. Esse alguém és tu, que te finges dragão mesmo quando não sabes que estás a fingir, nem o que realmente é um dragão. Pois o dragão é a grande máscara que se infiltra pelos poros do teu rosto e queima a expressão do teu sorriso. É ele que devora os teus olhos e põe no lugar deles os olhos dele, míopes, obcecados por duendes pretos e aterrorizados por fénixes.

Arranca a cabeça desse dragão que tem consumido o planeta inteiro e cavado a campa da Humanidade. Arranca-lhe a cabeça e come-lhe o coração. Desperta desse teu sonho de mentira.


O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Quadrado de Chumbo

01 - 05 - 2020

Um quadrado de chumbo afunda-se em direção ao inferno. A sua queda é a sua dor, o seu chumbo é a sua revolta e incompreensão. A sua forma quadrangular, a sua incapacidade de se libertar. Libertar d quê? Da queda que o afunda, do chumbo que é o peso que dá lanço à queda, e do quadrado que é o próprio limite com que o ser se desconhece livre ou se reconhece chumbo e queda.

Encurralado nas circunstâncias da vida, o quadrado enrijece, o chumbo adensa-se e a queda aprofunda-se. Uma perda, um limite, uma impotência, uma prisão inquebrável, um movimento estafante, uma rotina podre, um indivíduo tal e qual a sua rotina, quadrado de chumbo... em queda.

Mas a queda só dura enquanto o chumbo pesar mais que o céu. E o chumbo só pesa enquanto a quadrado definir peso nele. E o quadrado só define seja o que for enquanto a atenção se limita no quadrado que aparenta ser, um pedaço de chumbo numa queda na escuridão.

É tudo uma questão de atenção, de foco. As circunstâncias que criam a dor existem, mas as circunstâncias não são, em si, a queda nem o chumbo, muito menos o quadrado. As circunstâncias são apenas circunstâncias, não são boas nem más. É o quadrado que tem o poder de ver o bom e o mau. E é ele que se fixa no lado mau da circunstância e extrai dela a matéria que cria o chumbo. As circunstâncias existem, mas se a atenção quebrar as arestas do quadrado, se o ser não se limitar à sua dor, se ele deixar de se cercar pela sua impotência e libertar o seu olhar além do quadrado, as suas arestas dissolver-se-ão e toda aquela energia que tomava a forma de quadrado de chumbo em profunda queda, é libertada e entregue de volta ao ser.

É incrível a quantidade de energia necessária para fazer um pequeno quadrado de chumbo. 

Há quem diga que é suficiente para criar um universo inteiro.

O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Centro-Luz

21/04/2020

A Luz aponta para o Centro onde o Ser se revela. Ela é a Verdade e o Bem, um Bem que transcende a nossa perceção de bom e mau. Ela é aquele que vê, aquilo que aponta e aquilo que é apontado.

Há infinitos indivíduos, mas só há um Centro.

A Luz é uma força universal que se direciona para o indivíduo. O objetivo do indivíduo é atingir o Centro, por isso existe a Luz que o guia e, às vezes, arrasta. Para chegarmos ao outro lado do vale temos primeiro que descer o seu abismo.

A Escuridão é o inverso, uma força individual que se direciona para o universo. Ela nasce do indivíduo, da sua ignorância. O indivíduo aparenta ser Escuridão, inicia o seu longo caminho na Escuridão, até encontrar o Centro.

Do indivíduo para o universo, saem os movimentos da Escuridão, por sua vez, do universo para o indivíduo, entram as forças da Luz. Sempre que alguém age, recebe uma reação do universo, uma luz, uma lição que aponta para o Centro.

O Centro é a meta de todos, mas podemos dar a volta à maratona ou seguir os corta-matos. Tudo depende se estamos ou não atentos à Luz.

Quando a Escuridão encontra o Centro, o universo transborda no indivíduo e o indivíduo no universo. E tudo é LUZ.

O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Monstro

11 - 04 - 2020

Por mais inacreditável que possa parecer, o maior monstro que existe não é o Homem. Eu sei, de início também fiquei admirado, incrédulo, até. Haverá monstro mais feroz, impulsivo e... estúpido que o Homem? Sim, há. O monstro mais temível de todos, mais destruidor, mais malévolo e... mais estúpido, não é o Homem, no entanto, é filho dele.

Que raio de monstro é esse que é filho do Homem? Poderá um filho ser mais que um pai? A evolução diz-nos que sim. Então e que filho é esse?

À primeira vista, há quem ache que este monstro é o mal. Mas não, o mal não é monstro nenhum. É mais um poio no qual escorregamos e caímos de cú. Os poios não têm culpa, não passam do produto das vísceras emocionais e psicológicas dos homens que largam peidos e cagalhões a torto e a direito sem razão alguma.

Mas, então, se o mal não é o maior monstro de todos, quem é?

O monstro mais feroz, mais perigoso, mais monstruoso de todos, é a certeza. Porquê? Porque ela "sabe tudo", incluindo aquilo que não sabe. É a certeza que julga um ato aparentemente mau, assim como é ela que olha para um ato aparentemente bom e diz "Cá para mim queres-me passar a perna". Ai, certeza, filha da puta, que agarras na realidade fluida e vaporosa e a tentas fixar com o cimento dos teus "achares". Sim, porque a certeza assenta as garras das suas patas no especulativo solo movediço dos "achares" e das "crenças". E o pior é que ela é tão gorda que esconde o chão por baixo dela, nem sabe que o pisa. É por isso que todos pensam que sabem, quando não passa de achares. Saibam que a verdade está para lá do que se pensa?

Certeza, filha do Homem, não, filha da incapacidade de saber viver. Porque a vida, a sua expressão plena, está para lá de qualquer cristalização. Ela desliza, flui, muda de forma a todo o instante. Nenhuma certeza consegue segurar a vida pelos cornos, porque a vida não é para ser segurada pelos cornos, é para ser montada, que nem rodeo. O cavaleiro não tenta parar o touro, tenta sim tornar-se solto o suficiente para dançar as voltas que o touro dá.

As certezas fazem do touro uma chichila, ou um dragão. Elas deturpam a verdade. A face da vida não é o rosto da certeza, mas sim da verdade. Por mais que os nossos olhos nos tentem iludir com a face deste monstro, a verdade toura acaba sempre por dar uma cornada na cara feia da certeza, desfigurando-a. Desfigurando, que é como quem diz, é mais uma cirurgia reconstrutiva. Sim, porque no final da viagem a certeza leva tanto no corpo, que acaba, forçosamente, por ficar com a face igual à face da vida, da verdade.

Apesar de ter dito que a certeza é filha do Homem, o oposto também se pode dizer, depende do homem que estejamos a falar. Existem dois homens, na verdade, coexistem dois homens dentro de um. O homem que conhecemos, aquele que se caga a torto e a direito, é o filho da certeza, um hibrido artificial, mal feito, estragado. Tu és essa coisa estragada, esse filho das certezas que só pensam saber... não te preocupes, eu também sou. Mas, o outro Homem, esse é o verdadeiro Homem, o enorme Homem, pelo menos, enquanto não é pai de certeza nenhuma, só aí é que ele se transforma no homem que caga. Chamemos ao filho da certeza, homenzito, e ao pai da certeza, Homoverus! Só pelo nome dá para perceber a distância que vai entre um e o outro. Entre o boneco mal feito e o verdadeiro indivíduo cujo olhar, despojado de certezas, reflete na perfeição os contornos do sol e do horizonte.

Numa altura qualquer das nossas vidas, quando ainda eramos crianças, esse brilho começou a ficar encoberto pelas nuvens da certeza, por este monstro, até desaparecer. É então que o pai das nuvens, o Homoverus, criador das certezas, se torna no filho do temporal, o homenzito. Mas os relâmpagos que nos torturam o espírito, e a chuva que nos pesa a alma, podem ser varridos num só movimento. Um movimento de simples constatação. A constatação de que, na verdade, os monstros não existem.

Que estas linhas sejam o touro da vida a dar-vos cornadas nas vossas certezas que vos fecham num cerco mirageante e vos obrigam a pastar o que todos os homenzitos cagam.. Nós não somos homenzitos, não somos ovelhas, somos o Homoverus, somos touros! Sim, a nossa face é tal e qual a face da vida. Cabe-nos a nós cortar a cabeça do monstro que criámos para vermos na paisagem além monstro os traços do nosso verdadeiro rosto.

Certezas, bruxas enganadoras, vampiras sugadoras de vida, zombies que se alimentam delas mesmas, esquecidas que toda a carne pútrida é tecida pela biologia da ignorância. Certezas, que se lhes espetem no coração a estaca do "não faz mal não sabermos", que se enfiem os alhos do "mistério" pela garganta a dentro, que mandem a água benta da "humildade" para cima da pele grossa e bassa desses monstros. Mandem-nos para a fogueira da verdade, para que das suas cinzas possa nascer a Fénix da Aceitação!

Só a Fénix tem o poder de voar nos céus da pura liberdade.

Em falta de estacas, alhos, fogueiras ou água benta, que se lhes espetem vinte canivetadas no baço. Na falta de armas, uma queimadura-chinesa, ou uma traulitada no cocuruto, sei que não mata, mas ao menos dá para achincalhar.

Um beijo nessa cara verdadeira.


O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Cidades

03 - 04 -2020


As montanhas devoram o céu, os mares devoram a terra, as plantas devoram a luz, os animais devoram as plantas, os homens devoram os animais e as cidades devoram os homens, escravos das roldana que as mantêm em funcionamento, servos do óleo que faz as roldanas deslizarem num chiar sinistro que arrepia o espírito que se esconde nos confins da alma, deixando o Homem à mercê das cidades. O seu cansaço impede-o de perceber que, no final do dia, deu uma volta à sua roldana, a mesma volta que deu ontem e que dará amanhã.

Um sismo destrói uma cidade, guerra, novos gadgets. Ótimo, quanto mais distração, melhor. Cansaço e distração, cansaço e distração, para que ninguém perceba que anda às voltas.

Até os mais altos andares dos arranha-céus, com dúplexes luxuosos, não passam da necessária distração. Estejas em que altura estiveres, se estás numa cidade, estás ás voltas.

Cidades, densas teias do sem-sentido, do desperdício, da loucura. Stress, cansaço, voltas, tontura, morte. 

A planta dá a sua vida para a vaca e a vaca dá a sua vida para o Homem. Até aqui, tudo bem. O problema surge quando o homem dá a sua vida às cidades, monstros sem cabeça, zombies devoradores de músculos, miolos e almas.

Longe do alcatrão, os pés podem sentir a realidade do tempo, que, na verdade, passa sem passar. Está suspenso, pousado nos vales além, fluindo aqui e ali, na dança das folhas ao vento ou no rasgar de um pássaro no céu. Estão a ver o barulho do exaustor que só quando desligado é que damos conta que nos atormentava? O barulho das roldanas, das cidades, que faz o espírito fugir para o seu casulo, é tal e qual o barulho do exaustor. 

Uma vez com os pés na relva, envolto pela vida além cidades, o barulho, que não dávamos conta, some, e a sua ausência, esse profundo buraco de sinistro roçar de aço enferrujado contra aço enferrujado, é preenchido pelo alívio, na proporção exata do desconforto que causava... plenitude.

Desde que o homem não traga a cidade com ele, o espírito poderá espreitar através da alma, e o tempo será a luz que em tempos fora. E que sempre foi.

O que achaste? 

 Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Olhar-Gotícula

26 - 03 - 2020

O mar entrega-se a um penhasco empoleirado no fim do mundo que se faz vertigem para um espaço sem formas nem direções, onde as estrelas ficam demasiado longe para lhes darmos sentidos e as rosas se perdem na escuridão do espaço vazio. Lá, onde a liberdade de um flutuar eterno se encontra.

Sonha o Homem ser como estas ondas, que depois de muito se debaterem e contorcerem por entre as correntes do planeta, conseguem encontrar o penhasco onde o céu negro lhes estende a mão e as recebe num baloiço diferente do mar, delineando-as em formas titânicas. Estática graça que se entrega ao vazio e ao silêncio.

Livres do peso - filho da gravidade - soltas no espaço, as ondas não se estendem até nenhum sonho aquém chão, nem além. É por isso que os homens as invejam, ou invejariam, se soubessem que o mar tem ondas capazes de se lançar além dos limites da Terra; se soubessem que as ondas não são capazes de sonhar; se soubessem que a verdade só é capaz de ser, à luz negra do espaço vazio, longe de qualquer lua e qualquer sol; se soubessem.

A glória, a grandeza, aquilo que torna, estas ondas que atravessam a fronteira da terra, verdadeiramente majestosas e, mais que isso, um mistério, são as gotas que se soltam desses desenhos no espaço.

Na liberdade de serem gotas suspensas no céu além céu, veem-se no reflexo de onde elas mesmas saíram, são uma, independentes, indivisíveis. São deuses. Senhoras do seu círculo, da sua transparência.

Gota solta no espaço além terra. Haverá mais sublime olhar? Uma paisagem faz-se visão dentro da gota, não é a onda, nem a terra, mas a transparência dessas formas titânicas. Transparência atravessada pelo olhar da gota que desagua no espaço inteiro, infinito, muito além das ondas e de qualquer chão. Muito além das estrelas.

Essa transparência, que se faz paisagem na visão da gota, é a mesma transparência de que a gota é feita. A mesma transparência com que a gota se mostra... e oculta, na visão de tudo.

Quando o homem encontrar a gota no seu olhar, libertar-se-á das correntes da vida, das tempestades e bonanças, para se entregar à sensação deste momento eterno, desta gota que se solta e vê, suspensa no espaço, a paisagem do seu próprio olhar.

O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram


Revolta

15 - 03 - 2020

Quem é a filha da dor? A revolta. Enquanto a dor, em si é centrípeta, nasce da periferia do ser e converge para o centro dele mesmo, a revolta é o contrário, ela nasce nesse centro e exala-se para fora, como uma explosão que tem como missão destruir a sua própria mãe ou bani-la do centro do ser. A revolta é a segunda arma mais poderosa do Homem, foi com ela que ele criou tudo o que vemos.

Quando me refiro à revolta não estou necessariamente a falar da revolta irada e explosiva, mas sim da raiz da revolta onde todo o tipo de revoltas e negações desabrocham. Esta raiz da revolta é aquilo que vibra dentro de nós com as palavras "Não, isto não pode ser assim." "Tem que haver outra forma" "Tem que haver uma explicação". A raiz da revolta é tudo o que nega aquilo que não faz sentido para o Homem, ou que o magoa. Ele trabalha num emprego que não o deixa satisfeito, essa insatisfação gera a dor que por sua vez gera a revolta que é constituída por três partes.

A primeira é a Certeza, a certeza de que as coisas não estão bem, a certeza de que o ser tem que fazer alguma coisa para resolver esta dor. A segunda parte é a do Plano, é aqui que a revolta encontra a forma mais eficaz de se revoltar. E a terceira é o ato de revolta em si, que vai, em fim, libertar, ou tentar libertar, o ser da dor que se crava no centro dele. E quando me refiro a dor, refiro-me à raiz da dor, a toda e qualquer insatisfação.

A revolta é o poder que muda e transforma o mundo e o Homem. É a revolta que quebra as paredes nubladas do horizonte, para o expandir num horizonte mais distante. É ela que destrói os becos sem saída e encontra o caminho por detrás deles.

A dor é a sabedoria, enquanto a revolta é a força. É a dor que nos informa que algo não está bem. E é a revolta que tem o poder para eliminar isso que não está bem.

Lembras-te de eu ter dito que a segunda arma mais poderosa do ser é a revolta? Pois, a primeira é mil vezes mais poderosa, mas comecemos pelo início. A dor, não a dor física, mas a dor emocional e mental em que a humanidade se afunda sem se aperceber, é o nosso segundo maior inimigo e também o nosso maior amigo pois é graças a ela que percebemos o erro fundamental em que nos encontramos.

Esta insatisfação que se perpetua numa fome devoradora de tudo o que não tem interesse, de uma maratona interminável à volta da mesma rotunda, é, não a causa, mas o efeito do erro em que vive o Homem. Esta insatisfação profunda é filha da ignorância. O Homem vive em ignorância. E vive em ignorância porque vive em revolta. Sim, é verdade que foi a revolta que gerou tudo o que o Homem criou, que o ergueu acima dos animais, mas de que serve tudo isso se o indivíduo continua infeliz? A revolta ergue impérios, mas escraviza os indivíduos.

É verdade que há doses essenciais e benéficas de revolta, mas nenhuma dessas doses, dessas ações, pode resolver o verdadeiro problema do Homem enquanto indivíduo, enquanto Ser, a não ser a Ação Absoluta da Revolta, isto é, quando a revolta se revolta contra ela mesma, dissolvendo-se.

A dor, que aprisiona o Homem nas trevas, só existe porque ele acredita que as coisas podem melhorar. E ele só acredita que as coisas podem melhorar porque tem uma noção de melhor e pior e, mais importante ainda, tem uma noção de futuro, de outras possibilidades além do presente existente. Pois esta faculdade de revolta, de procurar sempre algo mais, algo melhor, é precisamente aquilo que impele o ser para fora dele mesmo, que o afasta do centro onde só o presente existe. Um presente sem bom nem mau, sem porquês, sem nada além do presente que é tão cheio de ser.

Quando a revolta se revolta contra ela própria, ela explode, consumindo tudo o que existe no ser, incluindo a dor. E o que resta é apenas aquilo que não pode ser apagado, o próprio centro, o próprio ser, enraizado na perceção pura daquilo que é simplesmente porque é, em absoluta aceitação, sublime plenitude.

Sem a força da revolta a exercer limites e divisões dentro do ser, as forças da vida libertam-se, por fim, fluindo livremente, tomando a sua forma verdadeira que penetra no ser que a experimenta em total plenitude. Seja o doce aroma de uma flor ou o espinho de uma silva no pé, tudo é somente o que é. E, a verdade, é que o Homem é o que tudo o resto é, muito mais do que ele alguma vez poderá pensar ser. Quando a revolta se dissolve, quando a força opressiva do ser perante o mundo se desvanece, o ser torna-se solto, livre para ser, simplesmente, uma plenitude além dos limites de qualquer horizonte.

Aceita as marés, aceita as duas paisagens, exterior e interior e mantém-te fixo em contemplação, que o sol há de aparecer por detrás das montanhas...

... Aceitação

O que achaste?

Deixa o teu feedback no  Facebook ou Instagram

Confissão da Vida

06 - 03 - 2020


Que as bocas se calem, que os estômagos não se atrevam a grunhir, que a Terra se esqueça de girar, que o sangue cesse o seu fluir, que as galáxias parem de se afastar, que os sorrisos se cristalizem, que as caras feias se petrifiquem, que as ondas se tornem estátuas, que os cheiros se fixem no nariz, que os narizes se deixem no centro das almas, que a morte permaneça "morrer" por mais um tempo, que o tempo não seja tempo, que Deus descanse, que os demónios se cansem, que os anjos que dançam se tornem gárgulas neste exato momento. Que tudo pare! Porque a Vida se vai olhar, espreitar sobre si mesma, aprofundar os olhos no seu ventre, ver a paisagem a partir do preciso centro da sua existência.

Que a existência pare, que tudo seja tal e qual o que é, por um momento, o suficiente para que a Vida possa ver cada coisa, cada instante, cada estrela, cada glóbulo de sangue, cada cheiro, cada alma, cada morte, cada um tal e qual é. Tudo passa pelo seu olhar, e nada sai dele sem que antes a Vida diga "Belo... Perfeito... Eu".

Só então, depois de ter visto e amado cada coisa, da maior à mais pequena, da mais grosseira à mais sublime, é que tudo pode recomeçar, por mais meio segundo, ou metade da metade da metade disso. Talvez muito menos. Momento em que a Vida se volta a curvar sobre ela mesma, para que se observe e volte a dizer o quão bela é.

Que o olhar da Vida ilumine o nosso.


O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Poder

02 - 03 - 2020

Abram alas! Abram alas para o Poder! Mais poderoso que o dinheiro, que a fama, que a inteligência, que a força bruta, que qualquer outra coisa!  O Poder, o verdadeiro poder! A força que tudo subjuga, que vergue o fraco e o forte. Sim, o Poder, aquele capaz de dar um chuto nos tomates de um rei ou magnata qualquer, mostrando que o seu governo está demasiado alto para lhe proteger as baixezas. Poder, o único capaz de dizer a uma verdade profunda "Estou-me a cagar para isso"; de olhar para um poderoso qualquer e responder "E daí?". De dizer ao patrão "Vai-te foder, boi de merda" ou "Eu até gosto de ti, mas acho que mereço um aumento, caralho.".

Sim, o Poder! O único capaz de se erguer aos olhos de Deus e dizer-lhe, cara a cara, "Tu não existes!". De ser enganado, roubado e espancado e dizer "Obrigado, volte sempre!", de ser humilhado e responder, "Concordo plenamente!". De levar com bosta de pombo em cima e pensar "Toma lá cão de merda, desta vez foi o pombo que me fodeu!".

Sabedoria é poder. Mas o Poder tem poder para mandar a sabedoria para o caraças e dizer "o poder é fraco."

O mais absurdo, e absolutamente poderoso, é que o Poder se esconde dentro daquilo que não existe, o futuro. Sim, o futuro não existe enquanto é futuro. E quando se torna presente, deixa de ser futuro. Mas o poder é tão filha da mãe que faz aquilo que não existe, existir. Só porque tenho o poder de pensar que o futuro é real. Na verdade, não é o Poder que se esconde no futuro, é o futuro que se esconde no Poder. Sem Poder, não há futuro. Sem este Poder, não há nada.

Este Poder é muito mais que o poder que se empoleira no topo de qualquer sociedade, que muitos idolatram. Este poder que falo, o Poder dos poderes, está muito mais perto, só não digo que está aqui, porque aqui só existe o presente. Mas ele está muito, muito próximo de nós. Na verdade, está de tal forma fundido a nós que nem damos conta dele. Mas ele existe.

O Poder, aquele capaz de atirar um tomate ou um ferro de engomar à cara de um político; de retribuir uma chapada com um beijo de pura compaixão, ou um peido; de fazer seja o que for que lhe dê na gana, ou não.

Esse poder é o Nosso Poder, o Teu Poder! Ele é a Possibilidade. Tão simples, tão aparentemente vazia, claro, nenhum portal pode ser atravessado se for uma parede... ou se estiver cheio de coisas. A Possibilidade, as possibilidades que se espalham por cada canto e recanto do mundo e do teu ser e se entregam a todas as direções, abraçando o universo inteiro, encontrando-lhe o centro. O Teu Poder tece o futuro à tua frente, contém cada possibilidade de ação. Ele é pleno, absoluto. Mas a mente humana tende a ser muito pequena, limita-se nos seus interesses sem valor cobrindo com o manto da ignorância todas essas luzes poderosas que brilham à tua volta à espera que as tomes como caminho. O maior poder de todos, é este, eu chamo-lhe o Poder do Novo Agora, porque é ele que tece todos os novos agora, os novos presentes, arrancando-os ao mar do futuro que se esconde num abismo irreal qualquer.

Tens, entrelaçado às fibras do teu ser, a força pura da liberdade, o Teu Poder, maior que qualquer tesouro, fama ou poder mundano. É teu, de mais ninguém. Podes fazer dele o que quiseres e bem entenderes. Ninguém o pode roubar de ti, mas podem fingir fazê-lo, se tu deixares. E aquele que mais finge roubar o teu poder, és tu.

Por isso dá um chuto nos teus tomates, ou mamas, ri sem razão, beija os teus próprios lábios e desperta a lembrança daquilo que na verdade és... minha bolha metafísica de possibilidades infinitas!

Um beijo nessas trombas fofas.

(Mais poderoso que o Poder, só mesmo o Amor… e a Verdade)


O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram

Donut

27-02-2020

A vida é como um donut. Dizem que a verdade está no centro. Os donuts têm um centro, mas esse centro não é donut algum, é um buraco, o vazio, o nada, aquilo que não existe.

Se uma formiga estivesse em cima de um donut e andasse sempre em frente, no final acabaria onde começou. Curioso como uma formiga num donut reflete tão bem a vida do Homem. Talvez Deus tenha o seu dedo, ou sabe-se lá o quê, enfiado no donut e ande a fazer o hulla-up com o sentido da nossa vida lá dentro.

O donut, em si, é a matéria. O que será o vazio no interior? O espírito? Mas, vazio? A menos que o vazio só aparente ser vazio porque é oposto à matéria. Talvez o espírito não seja vazio, mas sim o que não é matéria, anti-matéria?

Há quem diga que o donut guarda todos os segredos do universo, basta veres-te ao espelho através do buraco de um. Uns dizem que tem que ser um donut de marca, se não, não funciona. Pois, não sei. Sei que não gosto lá muito de donuts. Talvez seja por isso que encontro, através deles, menos sentido para o universo do que se talvez apreciasse donuts.

Quanto à cobertura, sonhos passageiros. Apesar de já ter sido fresca e deliciosa, a massa deste Donut Universalis tem mais de quatro biliões de anos - e foi deixada ao ar. E no final de tudo, jaz o nada, o vazio, o buraco. Sim, a morte.

Talvez nem haja vazio, nem morte real, e no final haja apenas espírito, ou melhor, um universo espiritual ou divino. Quem sabe que forma de doce terá esse universo. 

Se o vazio do donut fosse um bolo de arroz, para mim, o melhor estaria em baixo. Estranho, normalmente as coisas divinas tendem para cima, não me vejo a ter uma vida espiritual que acaba com uma trinca no delicioso cú semi-queimado de um bolo de arroz, escuro e chamuscado. O topo é dourado, com cristais de açúcar, angelical, divino ao olhar. Mas o que sabe bem é mesmo o cú. Se calhar vou para o Inferno.

Talvez o universo espiritual, este bolo de arroz, seja o purgatório, quem o come de baixo para cima, sobe ao Paraíso, quem o come de cima para baixo, desce ao Inferno.

O que eu gostava mesmo é que o buraco do donut desse para uma bola de berlim. Imagino o açúcar em pó como os anjos a darem-me as boas vindas, a massa húmida, os portões do paraíso a abrirem-se para mim. E o recheio é o próprio Deus em pessoa, ou em deus, a dar-me um aperto de mão. Se for mulher pode-me dar um beijinho.

Ai, se o buraco do donut fosse isso, uma bola de Berlim: o Espírito, os anjos, o Paraíso e Deus. Era fixe. O bolo de arroz que se lixe.

Mas temos que nos contentar com o Donut e não criar expectativas. E não aconselho rezar a Deus para que no buraco do donut se esconda uma bola de berlim. Se o universo espiritual for um Jesuita, Deus não vai achar piada por lhe estarmos a pedir um universo espiritual do qual ele não faz parte.

Também não será bom rezar por um melhor cozinheiro, pode ter sido Deus a fazer o Donut, não é bom depreciar aquele que nos pode garantir a vida eterna. Se tivéssemos a certeza que tinha sido Jesus, podíamos pedir que Deus contratasse alguém mais dotado, quem sabe, alguém com estrelas Michelin. Deus deve ter budget para isso. Mas não temos certezas nenhumas. Esse é o maior facto do universo, a incerteza. Por isso, o melhor é mesmo não rezar sobre coisas estúpidas e amar sempre a Deus, pertença ele ao doce culinário que pertencer. 

PS: Bom, bom, era se o buraco do donut fosse um brigadeiro de chocolate. É incrível como algo formado com a palavra "briga" pode ser tão delicioso. Até as pessoas pacíficas gostam de brigadeiros.
Eu não sou pacífico. Sou, mas às vezes passo-me. Deve ser por isso que gosto mais de brigadeiros do que uma pessoa pacífica. Pena que quando estou chateado não me dá para comer. É mais quando estou triste.
Mas não há razão para tristezas, pelo que sei, no final do Donut pode estar um brigadeiro, uma bola de berlim ou, quem sabe, uma mansão de sete assoalhadas e duas piscinas. Tudo pode acontecer.
É claro que também pode ser o caso de lá estar uma colher de óleo de fígado de bacalhau, ou um amendoim estragado. Ao menos mete pica, este suspense.

O que achaste?

Deixa o teu feedback no Facebook ou Instagram