Poesia Álmica

Quando escrevo poesia aponto para o centro, para o núcleo da Luz, e escrevo até às alturas que a Inspiração me atira.

Nesta página encontra-se a ser lançada a série de poemas da coleção Poesia Álmica . 

(1 poema de 10 em 10 dias)

Larva Terra

22 - 06 - 2020

Larva terra,
Rastejo pranto,
Áspero desespero
De ser pó de chão.

Larva terra,
Rasto lacrimejante
Na deserta gruta
D'inferna altura.

Sobmunda vida
De fome podre,
Inocência antiga
De ser bicho novo.

Larva terra,
Cansada da anda,
Da folha faz serra,
Crisálida cabana.

Esferas sobem,
Esferas dormem,
Sois e luas
Cuidam da roda

Que na crisálida
É natureza que brota,
Semente arvoresca bolota,
Ser de borboleta rota,

Voo largo,
Completa volta,
Larva terra...
Borboleta aérea.

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Malga Madeira

Madeira malga
De fundo em água,
Cova lagoa
Em mãos sábias.

Quem passa pensa
Malga esmola,
Sem ver vasto
Profundo lago.

Se quem passa é de alma
Ao ver a malga, vê o lago

Cova lagoa,
Abismo crisálido
Ond'alma cai
Nas mãos do sábio,

Útera luz
Que na água é manhã,
Sol ascende,
Almalga desencarna.

Quem passou e viu,
Caiu e encontrou
O reflexo do que acreditava ter,
Sol estendido na água.

Alma vista,
Malga cheia,
Lago iluminado,
Mais um sentado,

Malga madeira.

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Porto Sal

25-05-2020

Porto Sal,
Estrangeiro sopro,
Acolhendo naus
De cantos rostos.

Quatro ventos,
Sete correntes,
Afluem no porto
Praiada gente.

Conchas faces,
Búzios parágrafos.
Jeitos madrepérola
De todas as cores.

Estrangeiro sopro
Para marinheiro morto
É assalto corvo
À face espantada.

Estrangeiro sopro,
Abutre alado,
Vem comer o podre
Marinheiro carne.

Marinheiro brísico
De ossos desvelados,
Nas ondas tísico,
Sal de ser entornado

Sangue no porto
Que é cabo mar,
Quatro ventos,
Sete correntes,

Marinheiro brísico
Não tem lugar.
Palma mundo,
Porto céu,

Sabedoria salina,
Estrangeiro sopro,
Lar celestes ruas,
Mar de marinheiro osso.

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Céu

15 - 05 - 2020

O olhar do Homem
É ilha-baía,
Cinge o alto a algo
Abraçado nas suas pupilas.

O céu é livre de olhares,
De limites e de infinitos,
É livre de coisas e de acontecimentos,
Livre até de unidades.

Mas o homem lança
O seu olhar ao alto,
Porque o céu também tem que ter cor.


O homem acha e pergunta porquê,
O céu não conhece o porquê de achar.

O céu é sempre o céu,
Mesmo quando o homem lhe sonha estrelas e nuvens.

O alto não tem lugar
Mas é a casa de todos nós.

O alto não se move,
No entanto, está em toda a parte
E todo o momento.

O alto não pode falar
Apesar de ser a verdade
Aquela mais pura
A verdade do ser.

(…)


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Mistério

05 - 05 - 2020

O homem vê o mistério
Mas não o aceita,
Acredita poder tocá-lo

Tal como o vento toca
Nos vales e nas montanhas.
Acredita poder prová-lo
E continuar a ser de entranhas,

O mesmo homem de sempre
Ou talvez um homem maior.
Coitado que não sabe
Que no mistério só lá cabe o mistério,

Que nas entranhas
Só lá cabe tamanho,
E que no homem maior
Só lá cabem entranhas.

(…)

Luz do sol, tal e qual o sangue
Amarelo um, vermelho o outro
Diz o homem que nomeia as cores
Infeliz por remexer no mistério

(…)

Na orbe dourada
O mistério finge-se visto,
Assim como finge ser sentido
No coração que guarda o segredo.

Mistério, mistério,
Pai do céu e da terra,
Do mar e do vento.

Mistério, mistério,
Em muitos lados ele está
Mas é sempre o mesmo.

Mistério, mistério,
Se alguém o quiser provar
É importante que faça silêncio.


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Gotas Órficas

Essência orválhica,
Neblina luminosa
De gotas órficas

Cristalina manhã
Do mistério oblíquo
Pendente na flor,

Suspenso reflexo,
Naturais vestes
Da desperta gota,

Sóbria verdade
A sua nudez
É neblina manhã,

Gota despida
Pelo olhar império
Da criança nascida
Do despertar de um velho

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Gélid'alma

Coração selado
De fechaduras profundas

 (…)

Pobr'alma que encastela
O gelo de não ser ela.
Olhar, mestre chávico,
Que de muro e porta faz ruela,

(…)
Liberdade de soltar

As veias no mundo.
Amor de abraçar,
Ser um com tudo,
Sem ser do sonhar

Gélid'alma
Que não respondes às chamas,
Que te vulcanizas no abismo,
Não há portas nesse teu templo.

Abre os olhos e vê
Que no teu dentro
Não há portas nem muros,
Há mil ruelas e um templo.

E sentirás, gélid'alma,
O calor que em ti é selo
De divino espaço
Que anseia libertar-se.

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Ninfa Chuva

Ninfa chufa
De leite sol,
Refrescante queda
Depurando os olhares

Da secura cática,
Da espinhura estática
Do rodeante medo,
Só terra árida.

Ninfa chuva
De leite sol,
Cai lágrima mel
Nos corações anzol.

Amantes carpas
Saltam corpos cascatas
Desencarnado catos,
Almantes barcas.

Navegantes da chuva
De nifas ondas,
Descobrem os ventos
Da reta coragem

De viver para sempre
Deleitante viajem.
Ser mais que cato,
Mais que gente,

Ser o ser sem passagem,
Lacrimado num corpo,
Pincel miragem.
Sem monção, não há cor,

Por isso chove ninfagem.

(…)

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Folha

Pela luta entre ventos
Cruzados na guerra
Dos caminhos diferentes.

Folha solta
Que ao cair sobe,
Sem querer cair,
Sem querer subir.

Folha bailante
Que não sabe bailar.
Vê-se que dança com gosto
Assim como sobe e cai.

Folha imaculada,
De morte amachocada,
Crepitante se pisada,
Bela na aérea estrada.

Que pelo tempo a leva
Ser de muitas voltas,
Mas sempre a mesma,
Talvez, apenas, mais amachucada.

Se um músico brísico
A pousa no chão para nunca mais a erguer,
Igual fica o seu folheante sorriso,
Desprezando com amor o poder ser feita em pedaços

Por qualquer pé que pelo chão passe.
Folha humilde, folha enorme, folha santa,
Que no ar é mais bela que as flores
E no chão repousa imponente montanha

Maior que a própria Terra
E que o olhar de qualquer homem.

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Formigueiro Cinza

Formigueiro cinza,
Catastrófica ordem
Da ansia semeadora
E gula coletora.

Mortífero nota
Que sem som orquestra
Catastrófica ordem
Que encinza gigantes

Em passos formiga.
Pesadas correntes
Que se mascaram jubas
De falsos leões,

Ovelhas dissolutas
Em modos gostos,
Aberração da normalidade
De se fingir único,

Ovelhas fálsicas leoninas,
Formigas dos túneis obscuros,
De olhar ventre vazio,
Fixando mirageante destino.

Tudo invenções, tudo mentira,
À boleia da fome alucinante
Que anseia verdade sem saber
Vai espessando luas no seu comer.

Ilusão de ser formiga,
Erro de se sentir leão,
Ignorância de agir ovelha,
Cegueira de querer sem saber porquê.

Isto do Homem de hoje,
Aquilo do demónio de ontem.
Declives no caminho
Das almas que sobem solar destino.

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Trono Célico

Rei na sua só altura,
Luminoso estatuante,
Dedo que aponta
Indicando o jeito.

Ferrugem mascarada
Pelo dever de estar sentado
Num trono célico,
Corpo gélido.

Rei preso nos seus mantos,
Cinturado pela sua coroa,
De noite, livra o pranto,
De dia, grita em proa

As formas e jeitos
Deveres dos que andam
Libertos na linhas
Das suas tronas palavras

Desenha lei escorrega
Por onde povo navega
Sem culpa, o movimento impera
Há quem escuta, há quem trepa

Mas todos estão de pé
Muito abaixo do rei
Vergado a direito
No seu sentar de simbolo

Escravo palaceal museu
Poder cétrico
Estática loucura
De estar sempre certo

(…)

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 Hora de Ponta

Hora de ponta,
Enxame de direções,
Alucinante velocidade
De olhares entorpecidos

Puxados por rotinos destinos
Toda a hora trilhados
Pelas rodas dentadas que trilham,

Mais quadradas parecem
Mais mortas ainda.
Pena que o homem só voa
Em horas de ponta.

Pena que seja voo de minhocas,
Resigna fome,
Pistacho dos papagaios
Bem comportados.

Hora de ponta
A loucura nunca viu tanta retidão
Nem a cegueira tanta manobra
De não embater contra outro soldado
Que louco segue férreo caminho

Ai comboios de carga
Escravos da hora
E da vossa própria sombra

(...)

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Fica atento

Em breve será lançado outro poema álmico