Aqui tens um gosto do mistério que te espera

Constatação


 - 112, boa tarde. Em que posso ser útil? 

- Eu sei tudo!

- Desculpe? 

- Eu sei tudo! Ou, acho que sei. E não percebo nada! 

- Onde é que o senhor se encontra? 

- Não sei, está tudo tão confuso. 

- Qual é a emergência? 

- Eles correm perigo! Nós corremos perigo. 

- Mas, encontra-se em perigo neste momento? 

- Sim! 

- Está refém de alguém? 

A chamada cai.

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Filipe Dias, inspetor da Polícia Judiciária, sai da pastelaria com um par de croissants recheados numa mão e dois cafés noutra, toca com o cotovelo na janela do seu carro. Miguel Antunes, o seu colega, estica-se para lhe abrir a porta do lado do condutor e agarrar nos cafés. Depois de dar três grandes dentadas no seu croissant, o Antunes diz. 

- Então, Dias, não comes nada? 

Filipe não responde. 

- É por causa do problema que me falaste ontem? 

Continua sem responder. 

- Não te preocupes, tudo se há de resolver. Os bancos não tiram assim as casas a pessoas como nós. Fala com o chefe que ele mexe os seus cordelinhos e ficas a pagar a prestação por mais dez anos. Relaxa, homem! 

- A vida privada e a vida profissional não se misturam. 

- Sempre o mesmo Dias. Que mal tem usares uma ferramenta que está à tua disposição? Não vais roubar ninguém, vais só estender os pagamentos por mais tempo. 

- Todo o tipo de ferramentas estão à disposição de qualquer um. É a forma como usamos as ferramentas e as ferramentas que escolhemos que define o tipo de pessoa que somos. Um candelabro pode pode ser uma arma estupenda para matar alguém, assim como as minhas relações com o chefe me permitem adiar a retoma de um banco. Se está certo fazê-lo? Não.

- Não compares uma coisa com outra. 

- Princípios, Antunes. Se ninguém os tiver, o mundo fica perdido. Somos polícias, pá, representamos a lei, temos que dar o exemplo. 

Nisto, o rádio da polícia liga-se. A seguinte comunicação é ouvida "Dias e Antunes, dirijam-se à esquadra." 

- Daqui Dias. - Diz, enquanto agarra no intercomunicador.

- O que se passa? 

- A situação ainda é desconhecida, mas parece que implica reféns. 

- Estamos a ir. 

Dias encaixa o intercomunicador no tablier, cola a sirene ao tejadilho do carro e arranca em direção à esquadra. A urgência pode ser muita, no entanto, aquele que a atende é mortal. E os mortais estão acorrentados a obrigações às quais não podem escapar. E quando o café faz o seu efeito nas vísceras do indivíduo, este é obrigado a parar para tratar do assunto. 

- Vê lá se te despachas. - Diz Antunes. - E deixa de te preocupar com problemas de tão fácil resolução.

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António Braga, ex-professor universitário de Filosofia, reformado há dez anos, entra na loja da bomba de gasolina, com o seu ar carrancudo, sempre de mal com a vida, expressão que carrega há anos no seu semblante, tal cruz do calvário. 

- Dois maços de Ventil. - Ladra António, para o empregado. 

António Braga não fora sempre assim. Como disse, fora professor catedrático de filosofia, criador de umas quantas teorias. O seu espírito era alegre e livre, grande parte graças às teorias que forjava, redes existenciais que, tal ginasta num trampolim, o impulsionavam a belas alturas, nada menos que a obrigação de qualquer boa filosofia de vida. "Só existe um ser. Todos somos irmãos", "Tudo o que acontece, acontece para que nos aproximemos da Verdade". Filosofias deste género dão luz a qualquer vida. No entanto, António foi sempre de temperamento fogoso, explodia à mínima coisa. E, sempre que explodia, toda a sua crença, todo o seu conhecimento, se convertia numa pedra da calçada que ele pisava sem se dar conta da sua existência. E, se estivesse solta, era bem provável que a agarrasse e a atirasse à cabeça de alguém. 

Um ser contém nele um espetro de seres. Quando António estava normal, era alegre e despreocupado, bondoso, simpático e sempre pronto para uma boa dose de raciocínio ou uma qualquer aventura na "vida real". Mas, quando se chateava, deixava de ser o mesmo António, como se o simples estado de emoção do ser fosse capaz de reconfigurar toda a sua personalidade. Sim, António tornava-se noutro, o Sr. Fernando, por exemplo. Neste caso, no do António, tínhamos a luz e as trevas, a sabedoria e a ignorância, a alegria e a ira, o altruísmo e o egoísmo. Uma luta titânica que ia acontecendo dentro dele, ou podia ter sido uma luta, se António se tivesse focado nessa sombra e a tivesse tentado sublimar, aplicando a fusão dos polos, onde poderia, por fim, encontrar paz e beatitude. Mas a sua atenção esteve sempre virada para as suas teorias, para os enormes porquês do universo e da existência, as verdades mais altas. Sim, é verdade que António alcançou muitas verdades. Mas de que serve a verdade se o homem não possui as rédeas do seu próprio ser? Por mais coisas que soubesse, por mais evoluído que se julgasse - e que realmente o pudesse ser - bastava o seu estado emocional dar a volta que toda a sua sabedoria era engolida pelo seu subconsciente, tal Atlântida. 

Quem se atira para o céu sem tirar as raízes do chão sujo, estica-se, estica-se, e parte-se ao meio. Hoje em dia António não é mais o mesmo. O seu corpo interior quebrou, o que era do céu foi para o céu. A sua luz, pura e abençoada, escoou-se pelas entranhas do seu corpo interior que ficara sem cabeça nem coração. Agora António é só pés, pernas e vísceras. Os genitais estão lá, já não funcionam, mas continuam a atrapalhar. Agora António é um arrasto cansado. Já nem explode como antigamente, até para explodir é necessária energia. Toda a energia vem do céu, o relâmpago pertence ao espírito. E o espírito, pertence ao céu. António é como uma casca, uma pele de lagarto cujo interior foi cheio com lama. Um arrasto. Depois da quebra, do escoamento da luz, só restaram as trevas. Não as trevas ditas demoníacas, mas as trevas da amargura de quem, apesar de muito saber, não conseguiu encontrar na existência o sentido que as suas teorias delineavam. Não que as suas teorias estivessem incorretas, o problema é que, para ver o que é belo e verdadeiro, há que voar pelas alturas onde o belo e o verdadeiro são vistos.

António perdera o controlo e caíra para sempre onde tudo aquilo que acreditava se tornou mentira, especulação estéril de quem se quer entreter com o que nunca fez sentido. Na sua infelicidade, António vive satisfeito. Apesar de sentir que perdeu o tempo da sua vida a projetar ilusões e devaneios, sente que o gastou da melhor forma, pois, já que nada faz sentido, ao menos entreteve-se a imaginar sentido na vida. 

O empregado dá dois maços de Ventil a António. 

- São dez euros, chefe. 

- Chefe?! - Diz António, indignado. - Mas eu conheço-te de algum lado?

- Mas…

-  Está mas é calado, miúdo. Só te pedi dois ventis, mais nada. Nem mas, nem meio mas. Não quero chefes, nem obrigados, muito menos volte sempre. - Diz, deixando os clientes que estão a sair da loja consternados com tal atitude.

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 Filipe Dias sai da bomba de gasolina e atravessa o parque de estacionamento, de volta ao carro. Ao passar por uma família, diz, com nobre simpatia. 

- Muito bom dia, meus senhores. 

O casal olha para Dias com um ar estranho, quase chateado. É perfeitamente normal, Dias vive numa cidade grande, as pessoas não se costumam cumprimentar na rua. Às vezes cumprimentamos os polícias. Eis o problema, Dias foi polícia durante dez anos, só é inspetor há dois. Esqueceu-se que não está fardado. Por isso, para remediar os olhares, aponta para o distintivo preso no seu cinto. - Distintivo que, por estranho que pareça, já estava bem visível. - O pai pega na criança, de quatro anos, ao colo e corre, com a mulher, para dentro do carro, deixando as compras no parque de estacionamento. 

- Que gente estranha. - Pensa Dias. 

- Anda lá, pá, temos que nos despachar. - Diz Antunes, de dentro do carro. - E trás esses sacos. Talvez tenha Pringles. Ou leite, já só tenho um litro em casa.

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- Onde é que eu estou? - Diz Jorge, ao ver que se encontra com as calças para baixo, sentado numa retrete.

 - Onde é que achas que estás? Numa casa de banho. 

- Eu sei que estou numa casa de banho! - Responde Jorge. - Mas, onde? 

- Ah, estava a ver que estavas mesmo a ficar maluco. 

- Cala-te! Se estas merdas não me estivessem sempre a acontecer, podes crer que neste momento estarias fechado numa caixa qualquer na minha cabeça. 

- Não digas coisas dessas. No fundo, até gosto de ti. Se algum dia os teus apagões deixarem de acontecer e tu conseguires ter sempre à mão os comprimidos, te garanto que vais sentir muito a minha falta. 

- Cala-te! 

- Não despejes a tua raiva em mim. Não tenho culpa que a rapariga prefira o outro. 

- Está mas é calado antes que eu corte a cabeça. Assim tu deixas de falar e eu deixo de te ouvir. 

- Não farias uma coisa dessas. 

- Queres apostar?

- Te garanto que não o farias. Pelo menos enquanto as contas não estivessem saldadas. 

- Quais contas?

 - Então, essa mulher tem que morrer! 

- Ela está casada com ele, não comigo. Não tem sentido ficar irritado, nós nem sequer chegámos a ver-nos, apenas falámos pelo chat. Ela percebeu que prefere o marido, só isso. 

- E se eu te disser que o marido dela descobriu que vocês falavam e a proibiu de comunicar contigo. 

- Achas mesmo? 

- Ela estava tão apaixonada. É, no mínimo, estranho que tenha deixado de falar contigo assim da noite para o dia. De qualquer das formas, é indecente mostrar tanta paixão e depois cortar o contacto. Para mim é razão que chegue para que se cortarem umas gargantas. 

- Cala-te! É por causa de ti que nunca mais vou poder ser barbeiro. Impedes-me de fazer a minha arte, aquilo que mais gosto. És uma praga dentro de mim! 

- Não tenho culpa que a tua profissão envolvesse lâminas e pescoços. Acredita que eu não tinha poder para me controlar, era um impulso maior que eu, convencer-te a realizar os meus desejos. Não tenho culpa de não ter corpo próprio para poder realizar o que eu quero de forma independente. Mas, admito, tenho saudades desses tempos. Quando estás feliz cantas muito bem. Gosto muito de te ouvir cantar. 

- Os concertos privados que eu dava aos meus clientes! 

- De amar e chorar por mais. Um delírio. Nem sei porque é que não cobravas mais. 

- Estava a fazer o que gostava, isso bastava. 

- Para mim, o melhor era o final, quando existia. Era como sexo! Prazer, prazer, prazer, e uma explosão de prazer, uma fonte de prazer vermelho. Pena que só atendias um ou dois clientes por semana. 

- Ou por mês. 

- Tens razão. Estes apagões dão cabo de ti. Se não fossem a razão da minha sobrevivência, acredita que era o primeiro a ajudar-te a veres-te livre deles. 

Jorge ouve a porta da casa de banho a abrir-se. Uns passos, duas braguilhas a deslizar e "tchhhhh". 

- Estou quase a descobrir o serial killer do parque. 

- A sério? Então, queres contar pormenores? 

- Não. Há anos que ando para apanhar este tipo. O Dias tem quase a certeza de quem é. Mas não me vou chibar de nada. Sempre que estamos perto de o apanhar ele safa-se, é como se alguém o andasse a informar. Talvez seja mesmo isso que está a acontecer. 

- Parece-me um pouco paranoico, não achas? Uma coisa era um chefe da máfia. Não estou a ver um assassino pagar a algum dos nossos para vigiar o seu caso. No entanto, admito, é melhor não excluir nenhuma opção. 

- Há gente com muito dinheiro. Alguma dessa gente é assassina. 

Uma braguilha fecha-se, passos, a água do lavatório abre-se... fecha-se. Quatro papéis são puxados do dispensador de papel. 

- Bem, já estou. Até logo, Pereira.

- Até logo, Antunes.

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